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A indústria não precisa de mais ferramentas, mas de soluções tecnológicas que funcionem
A tecnologia já entrou na indústria brasileira. Dados da PINTEC Semestral, do IBGE, referentes a 2024 e divulgados recentemente, mostram que 90,3% das médias e grandes indústrias que utilizam tecnologias digitais avançadas relatam aumento de eficiência, e mais da metade já combina três ou mais dessas tecnologias. A mesma pesquisa, porém, traz um dado incômodo: a taxa de inovação da indústria caiu pelo terceiro ano consecutivo, para 64,4%, o menor nível da série iniciada em 2021. Ou seja, a indústria está adotando tecnologia, mas isso não significa, necessariamente, que esteja inovando. O próximo desafio é transformar adoção em resultado.
Boa parte dessa distância nasce de uma confusão entre comprar ferramentas e resolver problemas. Operações de alta complexidade, como as da indústria, da logística e do setor financeiro, são feitas de sistemas legados, dezenas de bases de dados e regras de negócio que não estão em manual nenhum: estão codificadas em processos construídos ao longo de décadas. Esse jeito próprio de operar não é defeito a corrigir. É conhecimento acumulado, e costuma ser justamente o que diferencia a empresa da concorrência.
O software de prateleira, por definição, foi desenhado para o cliente mediano. Ele resolve bem o que é igual em toda empresa. Quando encontra a exceção que, naquela operação, é a regra, a lacuna não desaparece: é absorvida por pessoas. Vira planilha paralela, redigitação, conferência manual. Aprendi, na gestão, a ler a planilha paralela como diagnóstico, não como indisciplina: é o mapa honesto de onde a ferramenta deixou de acompanhar o fluxo real do trabalho.
A resposta não é sair contratando desenvolvimento sob medida para tudo, e aqui vale uma concessão ao cético. Customizar em excesso o núcleo de sistemas de mercado é receita conhecida de fracasso: a rede varejista Lidl consumiu sete anos e 500 milhões de euros tentando dobrar um ERP ao próprio modelo de estoque, até desistir. Mas a lição correta é sobre ordem, não sobre customização: primeiro entender o problema, depois escolher a tecnologia. Ferramenta adotada porque é tendência costuma resolver o problema de quem vende, não o de quem compra.
Feito o diagnóstico, a divisão fica clara. O que é commodity, como folha de pagamento, contabilidade ou e-mail, deve mesmo vir de prateleira: é maduro, barato, e ninguém ganha mercado por ter a contabilidade mais criativa. Só que commodity, por ser igual para todos, não gera diferencial competitivo. O diferencial mora na camada que conecta esses sistemas ao modo único de operar do negócio: integrações, automações e soluções desenvolvidas ou adaptadas para que tecnologias distintas funcionem como um sistema só. Customizar, nesse sentido, raramente significa construir do zero; significa fazer o que já existe, conversar com o que a operação realmente é.
Essa arquitetura é também o que separa crescimento de gargalo. Quando cada demanda nova vira mais uma ferramenta desconectada, a empresa cresce acumulando fricção e custo. Quando a arquitetura é coerente, com dados que circulam e interfaces bem definidas, a demanda nova encontra estrutura pronta para absorvê-la.
A inteligência artificial tornou essa discussão urgente. Segundo a mesma PINTEC, o uso de IA na indústria mais que dobrou em dois anos, para 41,9% das empresas. Ao mesmo tempo, na pesquisa da PwC divulgada em janeiro de 2026, 56% dos CEOs brasileiros ouvidos afirmam não ter obtido benefício algum com IA. O motivo raramente é o modelo. IA aprende e decide sobre dados; quando eles vivem fragmentados em sistemas que não se falam, o projeto morre no piloto. A Gartner projeta que 60% dos projetos de IA sem dados preparados serão abandonados até o fim de 2026.
O desafio, portanto, não é adotar o maior número possível de ferramentas, e sim construir uma estrutura tecnológica coerente com a realidade de cada negócio. Em setores de alta complexidade, essa costura sob medida deixou de ser diferencial: passou a ser a condição para que a eficiência prometida pela tecnologia, inclusive a IA, saia do discurso e chegue à operação.
O post A indústria não precisa de mais ferramentas, mas de soluções tecnológicas que funcionem aparece primeiro em Startupi e foi escrito por Convidado Especial
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