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Startups de agtech e cleantech trocam equity por dívida para financiar expansão em alta dos juros
O mais maduro ecossistema de startups brasileiro está catalisando a transição do venture capital clássico para instrumentos de dívida estruturada, como CRIs, debêntures incentivadas e FIDCs, num movimento reforçado pelo alto custo do capital e pela aversão a rodadas que diluem participação acionária.
Ao invés de vender participação acionária em um cenário de valuations em baixa, agtechs e cleantechs têm buscado financiamento que se vincule à futura geração de caixa e a recebíveis, uma opção que mantém o controle acionário e se alinha mais aos projetos que demandam grande infraestrutura.
A mudança vai além do financeiro; é o mercado mais maduro que se demonstra. Conforme noticiado no setor, startups que já têm negócios mais sólidos começaram a optar por financiamento via dívida para evitar down rounds, e o mercado de capitais está se tornando uma fonte cada vez mais significativa de financiamento para o ecossistema, especialmente através de FIDCs e títulos incentivados.
Isso se aplica de maneira particular a agtechs e cleantechs, onde, geralmente, as startups precisam investir significativamente em ativos físicos, aumentar suas operações e começar a gerar receita a partir de contratos recorrentes.
Em um cenário de altas taxas de juros, a dívida toma o lugar do equity
É possível notar uma forte tendência ao analisar a precificação desses papéis. De acordo com relatórios de mercado mencionados por corretoras de análise, em 2026 os CRIs, CRAs e debêntures incentivadas ofereceram retornos típicos de 7% a 8% acima da inflação, em um cenário de Selic alta e uma curva de juros reais pressionada. Em outra pesquisa, as emissões isentas de IR chegaram a ser negociadas com prêmios equivalentes a IPCA + 7,5% ao ano em janeiro, oferecendo um retorno líquido competitivo para o investidor individual.
Para a empresa que emite, esse custo pode ser inferior ao custo implícito de perder a participação em uma rodada tardia de venture capital, especialmente se o crescimento já for bastante previsível. A tese oferece ao investidor proteção contra a inflação, isenção fiscal em certos instrumentos e lastro em ativos ou recebíveis, o que torna mais claro o apelo das operações estruturadas.
O mercado de capitais se tornou a principal fonte de financiamento
Os dados do ecossistema são úteis para entender a inflexão. No ano de 2025, reportagens que se basearam em dados da Sling Hub indicaram que as cinco maiores captações do ecossistema de startups brasileiro foram organizadas através de FIDCs, e não por meio de rodadas de equity; dos US$ 4,5 bilhões captados ao longo do ano, US$ 2,4 bilhões foram levantados por FIDCs, enquanto US$ 1,7 bilhão veio de equity. No primeiro trimestre de 2024, as startups já haviam captado 40% a mais, sendo que quase a metade desse montante era em forma de dívida. Em outra perspectiva latino-americana, o mercado revelou que uma parte significativa do novo capital já está sendo investida através de instrumentos de crédito, e não apenas em ações.
Esse movimento explica em parte por que a profissionalização financeira do setor passou a ser uma prioridade. Ao invés de contar unicamente com capital de venture capital, startups de growth passaram a criar estruturas semelhantes às de empresas que já estão listadas ou que têm um histórico de mercado, utilizando garantias, recebíveis e covenants para obter financiamento em maior escala.
O que se altera para as agtechs e cleantechs
Em se tratando de agtechs e cleantechs, a dívida estruturada é uma solução que resolve duas questões: financia ativos que demoram para gerar retorno e evita a diluição de participação quando o valuation pode não ser favorável. No que se refere a infraestrutura, transição energética, irrigação, logística, processamento ou bioinsumos, a previsibilidade em contratos e recebíveis permite a estruturação de CRIs, debêntures incentivadas e FIDCs, desde que existam governanças, históricos operacionais e capacidade de pagamento da dívida.
Contudo, a disciplina ainda é essencial quando se trata de precificação. Se a operação atual tiver sido montada com um spread real elevado — algo condizente com o mercado de 2026, quando ainda são frequentes os papéis de infraestrutura e crédito incentivado que pagam prêmios superiores a IPCA + 6% e até IPCA + 7% —, a argumentação só se mantém se a empresa for capaz de transformar o capital levantado em crescimento que traga retornos superiores ao custo do financiamento.
Análise de mercado
A série de captações por meio de dívidas indica que o ecossistema deixou de ver o crédito privado como uma alternativa temporária e começou a utilizá-lo como uma ferramenta estratégica para o crescimento. Para investidores de mercado, isso diversifica as opções de risco e retorno; para os fundadores, diminui a necessidade de capital próprio caro; e para o setor de inovação, sugere uma mudança de venture capital tradicional para um modelo híbrido, onde o capital de risco e o mercado de capitais coexistem em diferentes etapas do ciclo.
Ainda assim, a linha entre um financiamento eficiente e uma alavancagem excessiva continua sendo bastante fina. À medida que a dependência de dívida aumenta em um cenário de juros reais elevados, torna-se cada vez mais crucial ter um forte caixa operacional, boa governança e uma previsibilidade nos negócios.
É exatamente esse critério que costuma diferenciar as startups que conseguem crescer com um capital organizado daquelas que apenas substituem uma diluição imediata por um risco financeiro maior a médio prazo.
Seja ‘clean” ou seja “ag”, os números seguirão no foco do mercado.
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